3.11.10

SOBRE ELEIÇÕES, NORDESTINOS E AFINS

Por Ricardo Moraleida

Este texto foi escrito para uma amiga querida, que eu não vejo há tempos. Eleitora da Marina no primeiro turno e de Serra no segundo, fez alguns comentários irritados sobre os nordestinos hoje, ao que eu respondi perguntando se ela acreditava mesmo que a crítica era justa e indicando o eterno artigo da Maria Rita Kehl. Infelizmente ela me disse que não queria continuar a discussão, então não tive como responder à sua crítica e ao seu desapontamento por eu usar um discurso de “intelectual de esquerda” e a “mentalidade de encher os pobres de benefícios”.

Aqui vai, amiga, espero que você me entenda melhor depois disso:
É muito ruim ver gente que eu gosto muito entrando nessa onda de desqualificar o voto dos pobres, dos nordestinos, dos beneficiados por programas sociais que efetivamente melhoraram as condições de vida deles. É muito triste você achar que o nosso voto deveria valer mais que o deles porque nós estudamos, tivemos acesso ao conforto e à vida digna. Me desculpe a comparação, mas propor separar o nordeste à força é mais ou menos como propor criar uma nova Angola lá, pelo bem de criar uma nova Suíça aqui, é realmente isso que você quer? É esse o conceito de justiça social que você defende?
Eu fiz campanha, nesses últimos meses, com convicção de qual era o futuro que eu quero pro meu país. E vou continuar fazendo política de agora em diante, no meu papel intransferível de cobrar do novo governo tudo que ele prometeu, com todos os problemas que ele tem e que ele com certeza terá. Não foram os nordestinos que elegeram a Dilma. Fui eu, foram 60% dos habitantes do Rio de Janeiro, foram 45% dos habitantes de São Paulo, foram os meus amigos da classe média, foram os novos universitários do país inteiro, 55 milhões de pessoas. Aliás, se o Nordeste inteiro não tivesse votado, ainda assim Dilma teria 1,8 milhões de votos a mais.

Mas eu gosto muito de você, e gostaria muito, muito, de pensar que os seus últimos comentários foram só a força emotiva de o seu candidato não ter ganhado, gostaria muito de saber que você não pensa exatamente assim. E gostaria muito que você me acompanhasse na fiscalização séria e respeitosa ao governo que foi democraticamente eleito.

Não sou intelectual, nem mesmo um acadêmico. Sou um micro-empresário, um cara que preza o capitalismo e a possibilidade de trabalhar duro e melhorar de vida que ele me dá. Sou um cara extremamente grato à minha família por ter me dado todas as condições pra que eu pudesse estudar, trabalhar e viver por meus próprios esforços. E sou um cara correto, que pago os meus impostos em dia e registro minhas notas fiscais com a mesma diligência que leio as notícias e cobro soluções dos candidatos eleitos. Que faço campanha com a mesma militância que, ao perceber que minha escolha nessas eleições foi errada, irei às urnas em 4 anos exigir a mudança necessária, ou, se o improvável apocalipse acontecer, irei às ruas exigir a deposição da mandatária.

Mas nós somos privilegiados. Somos as frutos de uma sociedade extremamente desigual que se valeu e ainda se vale dos seus oprimidos para garantir os nossos privilégios. A prova máxima do nosso privilégio é que tem muita gente que trabalha tão duro quanto nós, e mais duro ainda, e ainda assim não consegue nosso padrão de vida. É esse o problema que a política atual tenta solucionar.
Eu e você não precisamos do governo simplesmente porque  a carga tributária pode continuar subindo e ainda assim vamos conseguir manter o nosso padrão de vida – ou vamos tranquilamente tirar nossos vistos e nos mandar pra um país desenvolvido qualquer. Os mais pobres não, e enquanto nós não tivermos uma sociedade igualitária, o governo não pode deixar que o capitalismo de mercado seja livre pra engolir a quem bem entender – nem depois, os EUA estão sofrendo as consequências disso até hoje. Mas fique feliz, BH e algumas outras capitais caminham para atingir esse ano o nível de emprego pleno, ou menos de 6% de desemprego – estamos no caminho certo.

Eu acho que você é uma pessoa bem informada, você sabe os valores pagos pelos programas que você chama de assistencialistas e as condições que são colocadas pra que as pessoas se tornem beneficiadas tão bem quanto sabe o valor da bolsa da Capes que recebeu durante o seu mestrado em uma Universidade Pública de conceito 7, paga com impostos de pobres e ricos desigualmente. Você sabe que é impossível uma família viver só de Bolsa-família ou de Pronasci assim como sabe como é difícil para nós viver só de bolsa. Você sabe que 4,8% da nossa população ainda vive com menos de 2 dólares por dia – e que eles eram 12% até 2003 e ainda são 9,6 milhões de pessoas. E eu não acredito que você quer competir ‘em igualdade de condições’ com alguém cuja renda é de R$ 306 por mês.

Eu sei que você enxerga que para eles, o teto do bolsa-família representa 65% a mais na renda mensal – e ainda não é suficiente para chegar ao salário mínimo. Eu espero que você imagine o tanto que é preciso ser pobre pra isso. Eu sei que você, como uma boa admiradora de coxinhas, sabe que eles precisam estudar e trabalhar, mas que a fome que eles sentem todos os dias e a preocupação em não deixar suas mães, filhos e netos comerem papelão ou aceitarem trabalho análogo à escravidão não é exatamente uma boa companheira de jornada.

É verdade, os programas assistenciais do governo dificultam a vida da classe média. Não é mais possível contratar uma empregada por menos do que um salário mínimo, e fica mais difícil a cada aumento anual acima da inflação. Não é mais possível pagar menos do que R$ 30 por dia pra uma diarista – nas regiões mais ricas, não é mais possível pagar menos de R$ 80! No meu apartamento no Rio, pago R$ 105 por um dia de faxina*. E fico feliz que as filhas da minha faxineira não vão precisar limpar a casa de ninguém pra viver, fico feliz que elas conheçam hoje o computador que eu conheci em 1997. Elas até poderão escolher viver como diaristas um dia, mas que seja por um salário que lhes garanta uma vida digna.

Fico feliz que os meus filhos tenham que competir com os filhos da minha faxineira, porque isso vai exigir deles que não fiquem sentados sobre os privilégios que eu herdei e eles herdarão de mim, espero ser capaz de passar para eles a hombridade necessária pra que reconheçam que o dinheiro que nós temos é igual ao que os outros têm, e muitas vezes vem muito mais facilmente para nós do que para eles.

Mas se pra isso for necessário que esses pobres TAMBÉM “mamem nas tetas do governo” por algum tempo, so be it – nós, os 10% mais ricos do país, já fazemos isso há muito tempo com o nosso sistema tributário injusto, com nossas bolsas de estudos no exterior, com os descontos no Imposto de Renda porque escolhemos pagar por escolas particulares e com a sonegação recorde, pura e simples.
Enquanto isso, cidades inteiras estão saindo da miséria porque o governo resolveu que era preciso partir o bolo pra que ele crescesse, resolveu entender que a lógica perversa da exclusão precisava ser resolvida de imediato, e resolveu que pra isso bastaria injetar uma parte do que eu pago de impostos na economia deles, resolveu que não ia cobrar dos lavradores do inteiror pra instalar os postes de luz que eu não paguei pra ter na cidade, resolveu que não ia dar vale-quentinha porque pobre tem que comer mas também tem que vestir, tem que ter lazer, tem que ter transporte e tem que ter a dignidade que só o controle sobre o próprio dinheiro nos dá.

Apoiar essa política não é ser intelectual, mas é ser de esquerda. E ser de esquerda é, antes de qualquer coisa, ser partidário da igualdade social.

Ao invés de me indignar com os beneficiários dos R$22 a R$200 mensais que alimentam, vestem e compram materiais escolares para famílias inteiras, com os beneficiários do microcrédito da Caixa, que montam as empresas que vão competir com a minha, prefiro direcionar o meu rancor à parcela dos 10 milhões de concurseiros de classe média e ricos, ávidos por uma boquinha nessas mesmas tetas, caçando vagas com salários de R$ 2 a R$ 15 mil com o objetivo único de garantir os próprios privilégios pagos, estes sim, com a riqueza que eu gero com o meu negócio honesto.

Vivemos num país capitalista, mas isso não significa que precisamos viver num capitalismo individualista, egoísta, em que cada um protege o seu e fecha os vidros com insulfilm pra não ver a miséria na rua. Morar em cidades grandes, como diz o Alex, nos dá uma carcaça grossa e insensível. É por isso que precisamos nos esforçar pra lutar por uma realidade diferente. É o que o Brasil está fazendo em escalas jamais vistas, dando a oportunidade de os seus cidadãos terem o mínimo necessário de dignidade para viver.

Foi por isso que eu e mais 55 milhões de brasileiros – somente 18,3 milhões no Nordeste – elegemos ontem a nossa 1ª presidenta.

* Eu pagava R$100 para a faxineira. Até o dia que ela me contou que se pegasse o trem chegaria 1h mais rápido no trabalho e 1h mais rápido em casa. Com R$ 5 reais ela ganhou duas horas úteis a mais no dia – o dinheiro é consumido igual, ela continua ganhando o mesmo, mas o que você daria para ter mais 2 horas por dia?

2.11.10

BREVE HISTÓRIA DE UMA CANDIDATURA

Dilma Lá: breve história de uma candidatura
Dilma vem de uma imensa legião de brasileiros muito bem retratados no livro clássico de Éder Sader, “Quando novos personagens entraram em cena”. Ela representa um novo momento em que um sujeito coletivo ganha o rosto de uma personagem. Foi assim com Lula, rosto do sujeito coletivo das greves do ABC e das mobilizações contra a ditadura; rosto que adquiriu outras feições quando deputado constituinte em 1986; depois quando candidato em 1989, sua primeira campanha presidencial; e quando finalmente foi eleito e reeleito (2002 e 2006). Representa ainda uma longa trajetória de lutas sociais e a ainda breve trajetória de grandes mudanças proporcionadas pelo atual governo. O artigo é de Antonio Lassance. 


Dilma é uma nova personagem que entra em cena na história brasileira. Consagrada por quase 56 milhões de votos, 12 milhões a mais que seu adversário, é uma figura distinta, em todos os sentidos; uma novidade e, ao mesmo tempo, uma velha conhecida.

Boa parte do que se tem veiculado sobre a presidente eleita na mídia tradicional desconhece quem é a Dilma, sua capacidade e seu estilo de trabalho. O que até não seria tão grave, se não viesse acompanhado por um profundo desconhecimento sobre o que são o presidencialismo e a Presidência no Brasil. Há um misto de desinformação, má informação e deformação contra alguém que, em plena democracia, continua sendo acusada, como ocorria na ditadura, pelo que fez e pelo que não fez, pelo que é e pelo que não é.

Dilma vem de uma imensa legião de brasileiros muito bem retratados no livro clássico de Éder Sader, “Quando novos personagens entraram em cena” (de 1988). Ela representa um novo momento em que um sujeito coletivo ganha o rosto de uma personagem. Foi assim com Lula, rosto do sujeito coletivo das greves do ABC e das mobilizações contra a ditadura; rosto que adquiriu outras feições quando deputado constituinte em 1986; depois quando candidato em 1989, sua primeira campanha presidencial; e quando finalmente foi eleito e reeleito (2002 e 2006).

Dilma é de uma das três matrizes identificadas por Sader como representativas do pensamento de esquerda no país. Nem da matriz sindicalista, nem das comunidades eclesiais de base da igreja Católica, mas egressa da matriz da esquerda clandestina, que enfrentou as armas e a tortura dos porões da ditadura.

A mais nova personagem desse sujeito coletivo representa uma longa trajetória de lutas sociais e a ainda breve trajetória de grandes mudanças proporcionadas pelo atual governo. Independentemente de sua matriz original, Dilma foi transformada por duas experiências cruciais: a do governo Lula e a da campanha eleitoral. Ambas certamente alteraram profundamente as feições da futura presidenta, o suficiente para que pudesse enfrentar, sobreviver e sair-se vitoriosa de ataques do tipo que já abateu figuras supostamente muito mais experientes do que ela - e que poderiam ter sido as escolhas preferenciais do PT para 2010.

Dilma é uma novidade em termos de seu perfil. O PT sempre acalentou o sonho de consumo de realizar a fórmula propugnada há muito por Carlos Matus. Especialista em planejamento estratégico e com grande ênfase em gestão presidencial, Matus foi assessor de Salvador Allende (Chile, 1965-1970). Visitou o Brasil várias vezes, teve livros publicados pelo IPEA (graças ao empenho de pesquisadores como Ronaldo Garcia) e circulava muito entre o movimento sindical. Matus enfatizava a importância de se combinar desenvoltura política com habilidade técnico-gerencial. Sua criatura abstrata era o dirigente tecnopolítico. Lula, que conheceu Matus pessoalmente, soube usar desse modelo em seu governo, ao combinar sua maestria política - reconhecida até por seus oponentes - com escolhas de alto padrão técnico, como foi o caso de Dilma.

A opção do presidente Lula por Dilma criou a chance de se ter uma presidenta que fosse um quadro tecnopolítico por excelência. A tarefa que se colocava então era a de turbinar tal escolha com um treinamento intensivo, para cumprir um requisito bastante diverso: o da excelência decisória.

Advindo da própria intuição do presidente, os argumentos em torno da excelência decisória foram reforçados, desde 2003, com a visita, ao Brasil e ao Palácio do Planalto, de um especialista em presidências, Richard Neustadt. O autor de “Poder presidencial e os presidentes modernos” estava visivelmente empolgado com o governo Lula, que mal tinha começado e enfrentava sérias dificuldades em seu primeiro ano. Neustadt, do alto de seus 84 anos e com a experiência de quem acompanhou de perto os governos Roosevelt, Truman e Kennedy, acreditava profeticamente que Lula poderia ter para o Brasil a importância que Franklin Roosevelt teve para os Estados Unidos. Contudo, sua audiência palaciana, grata com tal simpatia, mas cética de suas reais possibilidades (que ainda não podiam ser de fato vislumbras), apreciou particularmente uma das teses clássicas de Neustadt: a de que um presidente não precisa ser especialista em nenhuma área, especificamente. Mais do que qualquer outra coisa, ele precisa ser um especialista em presidência da República. Um exímio operador do poder presidencial.

Neste aspecto, Dilma passou por um treinamento intensivo, ou laboratório, se preferirem, que não poderia ocorrer em lugar melhor a não ser na Casa Civil da Presidência da República, ou seja, na estrutura responsável por demandar, digerir e encaminhar os atos presidenciais para deliberação. Por trás das assinaturas de um presidente se escondem processos de decisão política com meandros que Dilma conhece em detalhes.

A experiência na Casa Civil dá a exata dimensão entre o que um presidente quer e o que ele pode; a medida sobre até onde vai o seu poder, que não é imperial, e o que depende de se contar com maioria disciplinada no Congresso - uma das regras do presidencialismo de coalizão. Enquanto isso, uma das comentaristas que transformaram o comentário político no Brasil numa espécie de colunismo social dos Três Poderes avalia que um dos problemas da presidenta eleita é o de que ela tem uma base congressual maior que a do presidente Lula (!)

Aprende-se na Casa Civil que a capacidade e a velocidade de implementação de políticas públicas dependem da natureza de nosso federalismo e do padrão de nossa burocracia. Dilma conhece cada milímetro da Esplanada e esquadrinhou, com o PAC, cada milímetro do País. Na Casa Civil, se é treinado o tempo todo para saber que nenhuma decisão é correta se for tomada da forma errada e em hora certa incerta.

Um presidente deve saber exatamente em que ponto da estrada deve pisar no freio e quando pode afundar o pé no acelerador. No final de 2003, foram apresentados a Lula resultados de uma pesquisa de opinião que atestava: as pessoas entendiam o momento de arrumar a casa e estavam pacientes com relação às mudanças prometidas. A conclusão oferecida pelos analistas da pesquisa era: o povo não está com pressa. O presidente, que pisou no freio por todo o ano de 2003, retrucou, simples e direto : “o povo não tá com pressa, mas eu tô”. Dilma qualificou-se dentro da Casa Civil para ser uma especialista em presidência ao tornar-se também uma especialista em “timing”.

Dilma, "pela primeira vez na história do País", permitirá que o Brasil tenha uma sequência democrática de governos que cumprem o ciclo de construtores de regimes e gerenciadores de regime, uma noção comum na literatura sobre presidências.

Há presidentes que são construtores de regimes e outros que são seus gestores. Uns constróem uma maneira particular de fazer política e uma orientação diversa da ação do Estado, representando uma coalizão majoritária que desaloja uma antiga coalizão, em decadência. Por sua vez, os gestores de regimes têm como tarefa manter sua coalizão unida, avançar na realização das políticas públicas que cimentam a coesão de suas bases e oferecer respostas a seus eleitores, na forma de ações governamentais. São os gestores de regime que desvelam o legado do presidente anterior e desdobram suas realizações.

No Brasil, se pode dizer que esse ciclo foi cumprido apenas em três épocas: no início da República, entre Campos Sales (verdadeiro construtor do regime da República Velha) e Rodrigues Alves; na Era Vargas, quando Getúlio foi, primeiro (1930-1945) construtor de um novo regime e, depois, ele próprio, continuador de sua construção pregressa, começando em 1950, tragicamente interrompida em 1954. Finalmente, no período dos governos da ditadura militar (1964-1984). Na República Velha, o Brasil tinha um regime pouco representativo (oligárquico e não democrático). A construção do regime varguista ocorreu sobretudo a partir de uma ditadura, a do Estado Novo. O mesmo vale para os 20 anos da ditadura de 64.

Dilma é a primeira experiência democrática brasileira de gestão de um novo regime político e de suas políticas públicas. Todas as demais fracassaram sem deixar sucessores: Juscelino, Jango, Sarney, FHC.

Gerenciar um regime, em parte, é continuar o que tem sido feito, mas apenas em parte. Em grande medida, um presidente de continuidade é um desbravador e um desdobrador. Não é alguém que fará a pintura de uma casa já construída. É quem pega o leme no meio da viagem e precisa conduzir a embarcação adiante, até completar-se o ciclo.

O regime estruturado pelo presidente Lula suplantou a montagem minimalista do tucanato. FHC apostou todos os esforços na estabilidade macroeconômica e supôs que, daí, os resultados para o crescimento econômico e para a melhoria das condições sociais viriam naturalmente. Não vieram, e isso explica seu declínio.

A coalizão encabeçada por Lula e seu novo regime basearam-se na combinação de estabilidade econômica com esforços decididos e simultâneos de aceleração do crescimento e redução drástica das desigualdades. Duas coisas que, na mentalidade do regime anterior, estavam fora da governabilidade do Executivo federal e deveriam ser subproduto da estabilidade.

A campanha possibilitou a todos, em especial à presidenta eleita, a percepção clara da importância da mobilização e do contato popular. Principalmente a campanha de segundo turno. Ficou claro que, deixada à sua própria sorte, Dilma e Lula seriam derrotados pelas forças do atraso.
Os relatos de quem a acompanhou na campanha são repletos de histórias sobre como o semblante e a disposição da candidata eram energizados pelo contato popular. Algo que vai na mesma linha do que o presidente Lula não se cansa de repetir: as viagens pelo país garantem o contato com o povo, e isso revigora um presidente.

A estrutura de qualquer presidência da República é tradicionalmente montada para afastar a “autoridade” daqueles que o elegeram. A presidência diariamente se esforça para assoberbar o presidente com papéis, para manter suas portas fechadas, para isolá-lo do barulho das ruas.

Diante disso, se o presidente se acomoda, se ele não se insurgir contra uma rotina ritualizada, se ele não fugir do Palácio, ele se tornará um presidente cada vez menos popular. É preciso romper os limites do palácio de cristal (outra imagem muito conhecida criada por Matus), a redoma que tem a boa intenção de proteger o presidente de tudo, mas que acaba por afastá-lo, inclusive, daquilo que há de melhor.

As viagens pelas quais o presidente foi tantas vezes criticado, mesmo quando percorria seu próprio país e visitava as localidades mais pobres, permitiram que ele visse claramente as mudanças em curso e os problemas que engavetavam suas decisões. Mas, principalmente, as viagens recarregavam suas baterias com uma energia que não é gerada em despachos, em reuniões ministeriais e em negociações com o Congresso - ao contrário, essas a exaurem.

Pelo pouco que se viu das primeira horas após o resultado das eleições, pode-se antever também outra novidade: ao contrário de presidentes anteriores, Dilma não contará com aquela fase de “lua de mel”, os primeiros 100 dias em que oposição e imprensa dão um desconto para o presidente que entra, antes de abrir fogo com todas as suas baterias. Mesmo informado do discurso de paz e da mão estendida, a oposição fez declaração de guerra. O candidato derrotado - aquele que sacralizou a baixaria - deu ao conservadorismo mais abominável o qualificativo de “delimitação de campo”. E avisou: “isso não é o fim. Isso é apenas o começo”. A frase queimada no calor da derrota exala uma fumaça com forte cheiro de terceiro turno.

Neste sentido, mesmo com toda a agressividade, a oposição se coloca em desvantagem. Ao contrário de Dilma, que aprendeu muito em pouco tempo, a oposição demonstra que nada aprendeu em 8 anos de sucessivas derrotas. Consegue considerar-se campeã moral de uma guerra na qual se desmoralizou. Seu diagnóstico é o de que quem errou foi o povo. “Não foi dessa vez”, que se traduz em “o povo um dia aprende”. Suas lideranças se fecharam em copas e se arvoram bastiões dos velhos tempos; tempos que não voltam mais, principalmente porque cada vez menos gente sente saudades deles.

Ao longo da campanha, uma das formas mais utilizadas de se manifestar apoio a Dilma foi estampar sua foto de militante clandestina presa pela ditadura. As pessoas mostravam sua adesão a um rosto que simbolizava uma identidade coletiva. Enquanto essa coletividade estiver unida em torno de Dilma, a oposição estará condenada a repetir: “não foi dessa vez”.No que depender de seu preparo, a presidenta eleita teve, ao longo da vida, as melhores dentre todas as escolas.

(*) Cientista político, pesquisador do IPEA, foi assessor da Presidência da República de 2003 a 2010.

DESAFIOS PARA A PRESIDENTE DILMA

A presidente aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?
Celebramos alegremente a vitória de Dilma Rousseff. E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nivel indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados. Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, sairam desmoralizados.

Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff. Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais para um Estado republicano que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituída. Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura. A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema. E a ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Familia entre outras. Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos.

Não obtante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu o que granjeou para Lula extraordinária aceitação.

Agora se coloca a questão: a Presidente aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?

Estimo que, Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas novos como aquecimento global devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a novel Presidente compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva. O PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda no horizonte se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente.

Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repita a mercantilização das relações partidárias(“mensalão”).

As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será dificil, devido os interesses corporativos dos partidos, em grande parte, vazios de ideologia e famintos de benefícios. A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades.

Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a Presidente deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócio-ecológica. O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra. Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos, não imperial mas cordial e corresponsável pelo destino comum. Esse pacote de questões constitui um desafio da maior gravidade, que a novel Presidente irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.